Deixa de Rodeios!
No Jornal "A Folha", 27/8/2010.
Esta é uma expressão popular que leva logo ao assunto.
Qualquer notícia, seja de vida, seja de morte, é cercada de rodeios, principalmente as últimas. Até contam aquela historinha da notícia da morte do José. Ao escolher quem iria dar a notícia à família, logo o João Vitor, presidente do DIVA (Departamento de Investigação da Vida Alheia) se apresentou:
– Deixa comigo. Notícia de morte é comigo mesmo! E lá foi ele, ao encontro da Maria, esposa do José, com aquela perguntinha ingênua:
– Você é a viúva do José Sapateiro?
– Viúva não, meu marido está vivo!
– Estava! Respondeu prontamente o João Vitor. E Maria desmaiou!
Mas deixemos de rodeios! E vamos ao rodeio. É o assunto do momento em São Carlos. Uns a favor e outros contra. Eu, nem sou a favor nem contra, muito pelo contrário! Mas .... ( aqui abro um parêntese para dizer: cuidado com os preâmbulos!)
Quer ver um?: '"É, eu não queria amolar não, mas ... ", amo-la.
No entanto, gostaria de fazer algumas considerações a respeito do assunto. Segundo a coluna "torpedos", do Jornal Primeira Página, "a possível votação na Câmara de um projeto que regulariza os rodeios na cidade tem gerado polêmica entre quem é a favor e quem é contra. A coisa promete esquentar nos próximos tempos", afirmava a coluna publicada há algum tempo...
Promover rodeio em São Carlos seria o mesmo que "cantar parabéns em velório", isto é, completamente fora de lugar.
São Carlos não tem tradição em pecuária, aqui não é terra de boi. É terra de cana, de indústria, de universidade. Deixa o rodeio para Barretos ou para alguma cidade que tem a ver com o boi e peão! Por que não promover uma gincana universitária? Por que não promover uma exposição industrial? Por que não estimular a cultura? Por que não enveredar por outros caminhos mais saudáveis e mais produtivos? Para nós, o "segura peão", marca registrada do rodeio, tem outro sentido e outra dimensão. Poderíamos até dizer que está mais para o "aguenta companheiro": aguenta a violência, o desemprego, a miséria, a corrupção, o tráfico de pessoas, o tráfico de drogas, o tráfico de armas...
Festa de rodeio é coisa do passado ou quase passado. Basta ver a situação da Espanha, que dá os primeiros sinais de que quer acabar com as seculares touradas. E olha que a tourada faz parte da cultura espanhola! Já não há mais como conciliar a vida moderna com a selvageria da matança do touro (o que mais acontece) ou com a morte do toureiro (acidental). Que o diga a Sociedade Protetora dos Animais e o confirme George Bernard Shaw quando diz: "Quando um homem mata um tigre, chamam de esporte; se um tigre mata um homem chamam. de ferocidade".
Há outras coisas e situações para "o homem "domar" ou "dominar", além do boi. Até quando o suportar os saltos de um boi é prova de valentia? Isto sem falar nos maus tratos pelos quais passa o pobre do animal. Fechado num cubículo, vendo a multidão barulhenta, sob as esporas de peão e o barulho ensurdecedor do narrador do rodeio: "Vai abrir a porteira; o boi é de Itápolis; monta o peão Jorge que vem de Potunduva;
seguuuuuura, peãããããoooooooo!"
Cortar uma árvore é crime ambiental. Judiar de um animal é diversão que, em certo Estado de nosso país, tem um nome: "farra do boi". Meu tio, Dr. Sebastião, cinquenta anos de medicina, defensor dos animais dizia: "quando vejo uma tourada, torço para o boi; se vou a um rodeio, acontece a mesma coisa". Pensando bem, há uma lógica no pensamento do meu tio.
Um dia a Folha de São Paulo publicou uma foto de um homem derrubado pelo touro, em Cádiz (Espanha) com o título "o dia do touro". E, para complicar a situação, informava que a festa era uma tradição que celebra o domingo da ressurreição de Cristo. Ainda bem, ou, menos mal – como dizem os italianos – que a tradição em foco é com "t" minúsculo, o que significa dizer que pode ser abolida ou quebrada.
São Carlos não pode abdicar do direito de ser a "cidade do clima", a "capital da tecnologia", para se transformar em "terra do rodeio". Seria andar para trás e quem anda pra trás é caranguejo. Aliás, São Carlos "perdeu o agrishow" para Ribeirão Preto (por razões óbvias) e não faz sentido uma festa de rodeio fora do contexto maior, no caso o "agrishow". Ou o rodeio seria uma forma de enfrentar Ribeirão Preto? Seria derrota, na certa. Temos outros "campus" de disputa, nos quais, com certeza, sairíamos vitoriosos.
"Vivemos em uma época perígosa. O homem domina a natureza antes que tenha aprendido a dominar a si mesmo", recorda Albert Schweitzer, prêmio Nobel da Paz. O que vai na cabeça do peão quando ela "doma" o câvalo brabo ou o touro enfurecido? E o que vai na cabeça do cavalo ou do touro quando ele sente as esporas do peão? Você pode imaginar!
Alguém poderia perguntar: O que o Bispo tem a ver com isso? E esse alguém mesmo poderia completar: "Bispo entende é de igreja". Também, diria eu. Tudo o que é humano e, consequentemente, tudo o que é desumano (fruto do pecado) diz respeito àquele a quem cabe cuidar das ovelhas. Nada que é humano me é indiferente. Afinal, o Bispo deve exercer a sua função profética, anunciando o bem e denunciando o mal.
E, para terminar, um conselho: deixem de rodeio!
Por Dom Paulo Sérgio Machado (Bispo de São Carlos/SP)
Excelente texto, parabéns!
ResponderExcluirmuito bom, gostei das palavras do Bispo.
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